UPANEMA (RN). A carnaúba está permitindo que muitas pessoas no sertão do Rio Grande do Norte realizem sonhos, como ter comida na mesa para dar aos filhos, comprar uma poltrona, uma cama, um fogão ou um ventilador. É o caso da população de Palheiros, um assentamento na região do semi-árido, no município de Upanema, a cerca de 300 quilômetros de Natal. Reunidas em uma casinha que a ONG Carnaúba Viva está fazendo de ponto de encontro e depósito das folhas da planta, várias artesãs contaram como suas vidas e as de suas famílias mudaram desde que elas passaram a confeccionar as esteiras para a Petrobras.
Gracia Ramalho, presidente da ONG, explica que em Palheiros os homens trabalham em uma pedreira, cortando paralelepípedos, enquanto as mulheres, antes, ganhavam algum dinheiro descascando as castanhas de caju.
- Esse trabalho está resgatando a dignidade dessas mulheres e de suas famílias, além de preservar e disseminar a cultura de fazer esteiras, que estava morrendo - diz Gracia.
Segundo a presidente da ONG, as mulheres ganhavam R$0,50, em média, a cada quilo de castanhas descascadas. Algumas já faziam as esteiras para vender a outros artesãos, por um real. Esses artesãos compravam as esteiras para usar como matéria-prima de outros artefatos - chapéus, por exemplo. Havia ainda uma pequena produção de esteiras para servirem de embalagens de rapadura e colchões.
A artesã Antônia Rita da Silva, 44 anos, aprendeu a fazer as esteiras aos sete anos, com a mãe. Com o marido trabalhando na roça, a vida deles e dos três filhos antes do projeto da carnaúba era muito difícil.
- Muitas vezes vi meus filhos chorando, com fome, e eu não tinha nem podia comprar nem um pedaço de rapadura - diz Antônia Rita, que hoje é supervisora de 31 artesãs de Palheiros.
Ela conta, com orgulho, que consegue uma renda mensal de R$300 com a confecção das esteiras.
A maioria das mulheres faz as esteiras em casa, nos mais variados horários, mas principalmente à noite, depois das tarefas do dia. O rendimento depende do número de unidades, mas gira em torno dos R$300 mensais. Se antes a esteira era vendida a um real, agora o preço chega a R$6,50.
- Já consegui comprar coisas com meu trabalho que nunca na minha vida imaginei. Meus sonhos estão se realizando. Aumentei minha casa e já comprei cadeiras, sofá, televisão, geladeira. Minha filha comprou um ventilador para ela. Tudo isso eram sonhos - afirma Antônia Rita, cuja próxima meta é comprar um fogão.
A posição para trançar a palha é incômoda: a mulher fica sentada no chão e, com um dos pés, firma a esteira para fazer as tranças. Mas Maria da Conceição Costa e Silva - a Ceição, como é chamada -, uma das mais antigas artesãs, parece não se cansar. Faz de duas a três esteiras por dia e fala tão rapidamente que quase não dá para compreender:
- Foi bom demais (referindo-se ao projeto), quem quer trabalhar ganha dinheiro, só não ganha quem não quer trabalhar.
A renda de Ceição passou a ser o sustento da família, formada pelo marido e um filho de 18 anos.
Já Kátia Cristina da Conceição Silva, de 27 anos, começou a aprender a fazer as esteiras há cinco meses. Ela não quer mais saber de descascar castanhas, o que lhe rendia R$30 por mês:
- Já comprei muitas coisinhas. Agora, espero conseguir comprar uma televisão.
(Ramona Ordoñez, enviada especial - a repórter viajou a convite do Sebrae)
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