A casa estava para ser esvaziada naquela manhã. Eram 8:00 h quando meus olhos se abriram. Ela me pedia para levantar e me arrumar, partiríamos em alguns instantes e deixaríamos toda uma vida para trás, mas eu estava feliz. Corri até o banheiro e me olhei pela última vez naquele espelho pequeno de moldura branca. Sorri e olhei tudo em volta.
Juntei todos os meus cd's e meus livros. Guardei os brinquedos e dei uma pequena volta pela casa. Eu estava completamente feliz. Era uma manhã ensolarada e livre. A brisa soprava friamente amena, o caminhão parado lá fora já estava cheio, àquela hora. Passei os dedos pela parede do corredor, como de costume. Era toda uma vida deixada para trás, sim, mas era um recomeço, pelo menos pensava eu.
Eu estava feliz.
Foi um curto percurso de carro. Algumas ruas que eu já estava acostumada a atravessar. Mas naquele percurso, havia algo de definitivo. Era como sentir as mãos do tempo agindo de forma a mudar tudo na minha vida. As memórias permaneceram, mas o passado já havia passado. Aquele era um momento no qual eu passei muito tempo me preparando para acontecer. Eu adorei aquela mudança.
E, ao entrar naquela casa, o cheiro de novo invadiu minhas narinas e eu sorri firmemente, sem conseguir parar. Era tudo tão branco, as portas de cor tão escura quanto meus cabelos. O piso de cerâmica que nós dois havíamos escolhido juntos, dispostos em diagonal. As cores quase imperceptivelmente diferentes entre o teto e as paredes. A luminárias limpas e claras.
Eu caminhei pelo longo corredor até meu quarto e entrei, ainda vazio. Meus olhos de criança se ergueram e fitaram todo o cubo que era meu quarto, enorme à minha estatura. Imaculadamente branco. As janelas grandes e de cor escura deixavam entrar uma forte corrente de vento e naquele momento eu me senti mais livre que em toda a minha vida. Foi uma das sensações mais fortes que já me ocorreram até hoje.
E, enquanto preenchiam aquele espaço com meus móveis, eu rodava pelos cômodos, vendo todos aqueles anos de espectativa e detalhismo se transformarem em algo concretamente realizado. Era um momento de quebra, pelo menos eu pensava assim.
Durou pouco. Foi um belo dia, aquele 6 de janeiro de 2001. Passou. Mais uma vez a mão do tempo se ergueu sobre minha condição humana e agiu na vida, mas minhas memórias permaneceram. E continuarão comigo, mesmo que passe mais dez anos, até que a morte me extingua.
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