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ENTREVISTA COM JOHN GLENNEDY

. . Um comentário:

1.            Conte como foi sua infância.
Passei toda minha infância em Upanema. Assim como toda criança, sempre gostei muito de brincar. No momento, recordo-me do jogo de biloca (bolinha de gude) na Rua Mário Lino, que foi carinhosamente apelidada por nós de Beco da Alegria, das brincadeiras de esconde-esconde, vitória, garrafão, sete pecados e futebol no canteiro central da Avenida 16 de Setembro, do jogo de futebol no famoso “mini-campo” da Manoel Gonçalves, que se localizava no terreno onde hoje está erguida a Igreja Assembléia de Deus, do jogo de futsal na quadra “dos conjuntos” (hoje quadra da Escola Municipal Maria Gorete), do jogo de sinuca com meus primos João Paulo, Samir e Samyo e demais amigos, do jogo de botão com meus amigos da Rua Manoel Bezerra e adjacências, e do vídeo-game nas locadoras de Aldo Carvalho, Júnior Basílio e Valdemar Costa. Não posso deixar de lembrar que, aos 12 anos de idade, passei a praticar o fascinante jogo do Xadrez. O xadrez e a sinuca são um dos jogos que pratico até hoje, e que mais me proporcionam diversão.
Mesmo gostando muito de brincar, sempre priorizei os estudos. Eu sacrificava qualquer brincadeira citada acima para cumprir minhas atividades da escola. Agradeço isso a minha mãe, Maria das Graças, e a meu pai, John Kennedy, que sempre tiveram minha educação como prioridade e sempre me incentivaram e me mantiveram focado nos estudos, mostrando os exemplos de conterrâneos upanemenses que obtiveram sucesso na vida através dos estudos. Os exemplos de pessoas que não quiseram estudar também eram sempre lembrados por eles, como forma de mostrar o que me aconteceria caso não estudasse.
Lembro que minha vida estudantil começou na escolinha de Rosana Matoso, que funcionava ao lado do bar de seu pai, Raimundo Matoso. Depois estudei no Jardim Escola o Pequeno Doutor, com as professoras Cleci e Ione. Em seguida passei a estudar na Escola Estadual Professor Alfredo Simonetti, onde passei a maior parte de minha vida estudantil, de 1992 a 2000, quando conclui a 8ª série (hoje 9° ano).
Carrego com carinho as lembranças dos maravilhosos momentos vividos no Alfredo. A nossa turma era exemplar. Sempre muito unida e muito dedicada. Não foi à toa que boa parte de seus integrantes conquistou uma posição de destaque no meio social do nosso município.
Em 2011 passei a estudar no Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte – CEFET-RN, atual IFRN, onde sou professor hoje em dia. Lá conclui o Ensino Médio e o Curso Técnico em Construção Predial, em 2004. No mesmo ano me mudei para Natal para cursar a graduação em Engenharia Civil na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN.
2.            Quais as dificuldades que passou como estudante?
As dificuldades de um estudante que quer crescer e vencer na vida são enormes. Comigo não foi diferente. Minhas dificuldades como estudante surgiram em 2001, quando comecei a estudar no CEFET de Mossoró. No primeiro ano, a principal dificuldade foi a questão financeira. Era árduo ver meus pais se sacrificando para pagar minhas passagens e meus lanches diários. O fato de acordar cedo e de almoçar somente às 14h não era agradável, mas eu tirava de letra. O segundo ano foi mais tranquilo, pois a prefeitura, com o então prefeito Jorge Luiz, passou a custear minhas passagens, assim como de outros alunos. O terceiro ano passou a exigir maiores sacrifícios, pois minha rotina tornou-se um pouco intensa. Eu cursava o 3° ano do Ensino Médio pela manhã e, à noite, passei a fazer o curso técnico em Construção Predial. Eu seguia a seguinte rotina: acordava às 05h15min para ir para Mossoró. Retornava a Upanema às 14h. Às 18h ia novamente para Mossoró, retornando a Upanema às 23h30min para, então, acordar novamente às 05h15min. Nos horários “vagos” eu estudava para ambos os cursos e para o vestibular. Todos os esforços e sacrifícios foram válidos, pois conclui um curso técnico e um curso de ensino médio de qualidade, passando no primeiro e único vestibular de minha vida. Um sonho realizado: Engenharia Civil – UFRN 2004.
Em setembro de 2004 fui morar em Natal. Começaram as verdadeiras dificuldades. A primeira dificuldade por mim enfrentada foi a adaptação. Saudades da mãe, do pai, da irmã, da avó, das tias, dos primos, dos amigos... Lembro que as duas primeiras semanas foram muito difíceis. Eu não conseguia me concentrar durante as aulas. Foi o único momento, ao longo dos cincos anos de faculdade, que me fiz a seguinte pergunta: “Será se eu não deveria voltar?”. Mas logo em seguida respondi a mim mesmo: ”As pessoas que mais amo depositaram confiança em mim e estão se sacrificando para que eu possa estudar. Eu estou aqui para estudar e é isso que eu vou fazer”. E com esse pensamento fiquei até o dia de minha formatura.
Mas em nenhum momento me senti completamente sozinho em Natal. Era ciente que, sempre que precisasse, poderia contar com alguns conterrâneos e amigos que naquela cidade moram ou moravam. Aproveito o espaço para agradecer ao grande amigo Alberto Batista e a sua esposa Dona Júlia, pelo grande apoio que me foi dado no início de minha estadia em Natal e por sempre estar disponível para me ajudar. Agradecer a Dr. Arlindo e sua esposa Dona Marleide (in memoriam), por sempre ter deixado disponível sua farta mesa. Agradecer também a Lannúvio Freire e a Céliton Luiz, pelas grandes ajudas no decorrer dos meus cinco anos na universidade.
Outra grande dificuldade foi novamente a questão financeira. Nos dois primeiros anos, meus pais me sustentaram de forma integral. De tudo eu fazia para economizar: almocei muito miojo, macarrão com salsicha, torrada com café e biscoito com café. Lembro-me que comprar uma quentinha de R$ 5,00 era um luxo. Ocorria somente quando o corpo exigia ferro (feijão).
A partir do terceiro ano comecei a estagiar e a ganhar um pouco de dinheiro, que dava para compensar, de forma quase integral, meus gastos mensais. Entretanto, minha rotina ficou muito intensa. Assistia aula pela manhã, estagiava pela tarde e, as vezes, assistia aula novamente no turno da noite. Muitas madrugadas em claro foram necessárias para que eu conseguisse estudar e manter o bom nível na faculdade.
3.            Por que escolheu a carreira de professor? Foi vocação?
Sempre procurei admirar e respeitar todos os meus professores. Eu tentava enxergar as virtudes que cada um tinha e, relevar ou entender os seus defeitos. Todo ser humano tem defeito e o professor não é diferente. Esse meu posicionamento foi uma das fórmulas que me fez obter sucesso nos estudos e na vida. Lógico que o principal depende do quanto você estuda e da sua perseverança em conseguir superar os obstáculos que naturalmente aparecem para quem quer vencer na vida.
Esse meu posicionamento e o bom relacionamento que sempre mantive com meus professores me proporcionaram grande admiração pela arte de lecionar. Sempre achei que seria muito gratificante ouvir frases de agradecimentos dos alunos. Sempre achei que seria muito gratificante ver um ex-aluno seu obter grande sucesso profissional e você saber que teve uma parcela importante na formação daquele aluno. Esse é o principal motivo pelo qual me tornei professor. É bem verdade que o professor enfrenta vários problemas que sempre são citados por todos. Porém, qualquer profissional irá ter que enfrentar problemas em qualquer profissão que escolha seguir. Isso é natural e sempre vai acontecer. Eu mesmo já verifiquei isso.
Infelizmente, a desvalorização dos professores faz com que algo que deveria ocorrer de forma natural ocorra de forma inversa: os melhores alunos deveriam seguir a carreira de professor. Muitas vezes ouvi comentários como esses: “Quem diria... Você, um dos melhores alunos sendo professor”, ou então: “E por que você foi ser professor? Não conseguiu um emprego?”. Mas, um dia, o professor vai ter a valorização que merece e esse quadro mudará.
Com relação à vocação, sempre recebi incentivos. Alguns amigos da graduação diziam que eu seria o professor da turma, pois sempre procurava entender os conteúdos além do necessário para obter aprovação. No início da carreira, como professor substituto da UFRN, em fevereiro de 2010, recebi importantes incentivos de professores experientes que eu sempre admirei. Ouvir de alguns professores meu que eu seria um grande professor me deixou muito motivado para seguir a carreira.
4.            Qual sua graduação hoje?
Graduei-me, no ano de 2009, em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Sou aluno de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da mesma universidade, com previsão de término até o fim desse ano.
5.            Onde leciona?
Leciono nos cursos técnicos de Edificações e de Saneamento do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte – IFRN – Campus Mossoró. Atualmente estou ministrando as disciplinas de Mecânica dos Solos e de Estabilidade.
6.            Você também é funcionário de banco concursado? Como concilia?
Sim. Sou engenheiro civil concursado do Banco do Nordeste com lotação em Mossoró. A Constituição Federal permite que um mesmo servidor acumule dois cargos públicos, desde que um seja de professor e outro seja técnico ou científico, e que ainda haja compatibilidade de horários entre os cargos. O meu caso se encaixa perfeitamente nessa exceção apontada pela Constituição Federal.
7.            Quais as suas perspectivas para seu futuro?
No momento estou me esforçando bastante para defender a dissertação do meu mestrado. Até o fim desse ano quero estar com meu título de mestre, se Deus quiser. Depois disso irei me concentrar nas minhas carreiras do IFRN e do Banco. No IFRN, além as atividades de ensino, pretendo desenvolver atividades de pesquisa na área da Engenharia Geotécnica. Com relação ao meu crescimento no Banco do Nordeste, penso na possibilidade da realização de uma pós-graduação Lato Sensu em Engenharia de Avaliações.
Até ai sinto-me realizado profissionalmente e pessoalmente. Dessa forma tenho condições de viver de forma digna e feliz. Isso pra mim é o mais importante. Entretanto, eu tenho o sonho de concluir um doutorado. Estou ciente que o caminho que estou seguindo (acumular dois cargos) pode inviabilizar a realização desse sonho, já que a realização de um doutorado exige muito de quem quer obter esse título. Mesmo assim, tenho a possibilidade de solicitar afastamento durante a realização do mesmo. Enfim, o doutorado é algo que, por enquanto, não tenho certeza e, caso venha a fazer, será daqui a quatro ou cinco anos.
8.            Que conselho daria aos estudantes de hoje?
Aconselho que eles estudem (de verdade). Estudar é manter a postura de estudante, é respeitar os professores e reconhecer seus esforços, é conservar a escola, é fazer sacrifícios para conseguir o melhor desempenho possível. Estudar é a forma mais bonita de como uma pessoa pode vencer na vida. Estudar significa não desistir com as dificuldades. Toda vitória é difícil e exige muito suor, grandes sacrifícios e muita preparação. Se for fácil demais, alguma coisa não está certa e, portanto, não terá o verdadeiro gosto da vitória.
9.            Qual a freqüência que visita Upanema?
Desde que sai de Upanema (2004) e fui morar em Natal para cursar Engenharia Civil, o tempo máximo que passei sem visitar nossa cidade foi três meses. Durante os seis anos que morei em Natal, eu visitava Upanema com uma frequência de aproximadamente um mês.
A partir de setembro do ano passado, data em que passei a morar em Mossoró, tenho freqüentado Upanema praticamente todo final de semana. Às vezes isso não é possível por conta do mestrado.
10.          Seu nome recentemente foi citado como um bom candidato a prefeito. Você tem esse sonho?
Fico feliz que meu nome tenha sido lembrado dentro da política local. É sinal que tenho conseguido respeito através daquilo que sempre fiz na vida: estudar. Não diria que seja um sonho, pois ainda não tinha pensado nessa ideia. Mas, a política é algo que sempre gostei e que sempre me atraiu. Gosto muito de falar sobre política e de aprender com as pessoas que tem mais experiência. Vejo a ideia como uma possibilidade, mas que não pode ocorrer agora, pois, como já falei, tenho outros objetivos para os próximos anos de vinha vida.
Meu histórico de vida mostra que não sou aventureiro. Sempre entro em novos desafios com propósitos bem definidos e com condições de conseguir realizá-los. Caso isso (se candidatar) venha acontecer algum dia, é porque houve um consenso de um grupo que tem um pensamento político parecido com o meu e que acredita em meu trabalho como gestor.
11.          A vereador existe possibilidade já em 2012?
Não. Como falei, tenho o objetivo de nos próximos anos me dedicar às carreiras que escolhi seguir. A política é algo que me atrai e uma possível inserção de meu nome na política local me deixa lisonjeado. Mas, no momento não é prioridade.
12.          Apesar de distante de Upanema, qual a avaliação que você faz de nossa cidade hoje?
É de se admitir que, nos últimos anos, Upanema conseguiu algumas melhorias. Áreas como habitação, infra-estrutura, urbanismo, esporte e artes apresentaram avanços significativos nos últimos dez anos. Lembro que, quando criança, o número de casas de taipas em nossa cidade era considerável, o lixo e os entulhos tomavam conta da cidade, não havia uma política de arborização e os dons artísticos de nossos jovens não eram explorados.
Eu mesmo tive a oportunidade de participar de um projeto organizado pela Secretaria de Urbanismo e Ação Social, que tinha em seu comando a eficiente e dedicada secretária Rivanda Bezerra, e sei quão importante é esse tipo de projeto. Refiro-me à Banda Firlamônica Ivaldete Basílio da Silva, que foi capaz de inserir alguns de seus componentes no cenário musical da região. Com relação à arborização, além da importância ambiental, uma cidade bem arborizada elava a auto-estima dos habitantes.
No que se refere à educação, há um ponto positivo. Refiro-me ao número de universitários upanemenses. Quando eu era criança, o número de universitários upanemenses era muito reduzido. Atualmente, percebemos a presença de nossos jovens em universidades como UERN, UNP, UFRN, etc. De todo o modo, a educação em Upanema deixa muito a desejar. A insatisfação dos professores, a estrutura deficiente das escolas e a ausência de projetos e investimentos que estimulem os alunos fazem parte, infelizmente, da realidade da educação em Upanema.
Outro ponto negativo que consigo detectar, mesmo não estando diariamente presente em Upanema, é a questão do uso de drogas pelos nossos jovens. É impressionante como o tráfego de drogas em Upanema vem crescendo e, nenhuma mobilização marcante e firme é realizada para mudar o quadro. Esse é um ponto que deveria ser seriamente debatido pelos vereadores, por exemplo.
Uma área que vejo como sendo carente de investimentos é o turismo. O turismo é importante porque movimenta a economia local e aumenta a auto-estima da população. Upanema tem potencial para explorá-lo. Com a construção da BR 110, investimentos nessa linha tornam-se plausíveis e com certeza acarretarão em bons resultados para nossa cidade.
De forma geral, acho que Upanema melhorou muito dos últimos anos pra cá, mas ainda há muito a melhorar. A educação deve ser priorizada e investimentos que gere renda à população devem ser pensados.
13.          Mensagem final
Deixo minha mensagem especial a você, upanemense, que é mãe e que é pai. Gostaria de sugerir a vocês que priorizem a educação de seus filhos, assim como meus pais fizeram. Tenho certeza que vocês se sentirão recompensados e orgulhosos quando presenciarem o sucesso dos filhos através dos estudos. A educação de um filho é importante para ele, é importante para vocês (pais) e, principalmente, é importante para a sociedade, pois é através da educação que ser forma um cidadão.
Também deixo minha mensagem a você, jovem upanemense. Gostaria de dizer que as oportunidades não aparecem do nada. As oportunidades não criadas. Portanto, se você tem um objetivo, fique sabendo que não será fácil consegui-lo. Tem que correr atrás, ao invés de ficar em casa reclamando da vida. Fico triste quando vejo um jovem conterrâneo reclamando e dizendo que só fará “alguma coisa da vida” quando aparecer. Mas como vai aparecer se você não faz por onde? Do nada? Sacrifícios devem ser realizados para se conseguir objetivos na vida.
Por último, deixo meus sinceros agradecimentos ao Jornal de Upanema pela oportunidade. É uma honra ser entrevistado aqui. Parabenizo a todos os integrantes desse importante veículo de comunicação de nossa cidade.  O trabalho de vocês tem minha admiração e o meu respeito. Muito obrigado!

Um comentário:

  1. Glênio Medeiros03/09/2011, 15:44

    Valeu John. Parabéns pelo seu sucesso profissional e, gostaria de te dizer que sempre admirei sua forma de conciliar estudos, trabalho e faculdade sempre muito bem. E posso te dizer, sem dúvida alguma, que você é um vencedor, mas que é apenas o início de sua carreira. Espero que você utilize os seus estudos e conhecimentos em benefícios de sua cidade.

    Parabéns,

    Seu amigo

    Engº Glênio Medeiros

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